Saúde 360° no verão: como se cuidar / Tismoo

Saúde 360° no verão: calor e cuidados para pessoas autistas

19/12/2025

O verão no Brasil costuma trazer dias mais longos, sol forte e calor intenso — e isso muda a rotina de muita gente. Para pessoas autistas, de todo o espectro, essas mudanças podem pesar ainda mais: o corpo sofre com a temperatura, a pele pode ficar mais sensível, o sono desregula com facilidade e estímulos típicos da estação (luz, barulho, cheiros, aglomeração) podem aumentar o desconforto.

Além disso, nem sempre os sinais do corpo são percebidos ou comunicados de forma clara. Pessoas não oralizadas, com maiores déficits de comunicação ou com alterações interoceptivas (dificuldade de perceber sede, fome, calor, dor, cansaço) podem não avisar que estão com sede, fome ou passando mal. Por isso, no verão, o cuidado precisa ser mais estruturado e proativo — sem depender apenas do “me avise se precisar”.

Calor e sinais do corpo

  • Observe sinais de superaquecimento: pele muito vermelha, suor excessivo (ou ausência de suor), cansaço fora do comum, tontura, irritabilidade, dor de cabeça, náusea e sonolência.
  • Em algumas pessoas autistas, o desconforto físico pode aparecer como mudança de comportamento (agitação, choro, fuga, “travamento”, irritação) antes de virar queixa verbal — ou sem nunca virar.
  • Para pessoas não oralizadas ou com comunicação limitada, combine uma rotina de “checagens” ao longo do dia: sombra + água + pausa, em horários fixos, sem esperar o pedido.

Interocepção: quando o corpo não “avisa”

  • Se a pessoa não percebe sede ou fome com facilidade, o risco no calor aumenta.
  • Estruture sinais externos para substituir o sinal interno:
    horários fixos para água (por exemplo, a cada 60–90 minutos);
    pausas programadas em ambientes mais frescos;
    lanche leve em intervalos regulares;
    registro simples (checklist) para cuidadores acompanharem ingestão de água e alimentação.
  • Em passeios, o ideal é levar água e alimentos já aceitos pela pessoa, para evitar dependência de opções do local.

Hidratação com apoio visual e previsibilidade

  • Calor aumenta a perda de líquidos — e nem sempre a sede é percebida.
  • Estratégias práticas:
    garrafa sempre à vista (uma em cada ambiente, se possível);
    lembretes no celular/relógio do cuidador;
    combinados objetivos (“três goles agora”);
    uso de imagens/pictogramas ou cartões de comunicação para “água”, “sede”, “pausa”;
    copo com canudo ou bico, se facilitar.
  • Frutas ricas em água (melancia, melão, laranja) podem ajudar, principalmente quando beber água pura é difícil.

Proteção solar sem guerra sensorial

  • Protetor solar faz diferença, mas a textura e o cheiro podem ser um problema. Teste opções (creme, loção, spray, roll-on) e escolha a que gera menos incômodo.
  • Antecipe o passo a passo: mostre o frasco, explique onde vai passar, combine um “tempo de terminar” e use linguagem direta.
  • Roupas com proteção UV, bonés/chapéus e óculos escuros podem reduzir a necessidade de reaplicações constantes.
  • Evite exposição direta ao sol entre 10h e 16h, quando a radiação costuma ser mais forte.

Rotina, sono e sobrecarga

  • Dias longos, mais passeios e mais barulho podem bagunçar sono e previsibilidade — dois pontos sensíveis para muita gente autista.
  • Tente manter âncoras simples da rotina (horários aproximados de refeições, banho e dormir).
  • Se houver mudança (praia, piscina, viagem), antecipe com combinados curtos, agenda visual e “plano B” (um lugar silencioso para pausa, um objeto regulador, protetor auricular, óculos escuros).
  • Ambientes com ar-condicionado ajudam no calor, mas podem ressecar pele e mucosas: mantenha o aparelho limpo, ventile o ambiente e avalie umidificação quando necessário.

Dengue e repelente com menos incômodo

  • No verão, chuvas e água parada aumentam o risco de dengue. Mantenha caixas d’água tampadas e elimine recipientes que acumulam água.
  • Repelente pode causar incômodo sensorial. Teste textura e cheiro, e prefira aplicação em etapas (primeiro braços, depois pernas), respeitando a tolerância da pessoa.
  • Em passeios, roupas leves e de manga comprida podem complementar a proteção, dependendo do calor e da sensibilidade.

Atividade física e lazer com segurança

  • Prefira atividades ao ar livre no começo da manhã ou no fim da tarde.
  • Planeje pausas na sombra e intervalos para água, mesmo que a pessoa “não peça” ou pareça “bem”.
  • Em locais com piscina, praia ou muita gente, combine regras simples, identifique pontos de referência e considere recursos de identificação, quando fizer sentido para a família.
  • Se a pessoa tiver sensibilidade auditiva, leve alternativas: abafadores, protetor auricular, boné, óculos escuros e um item de conforto (sensorial) para ajudar na autorregulação.